Levantamento do IEMI revela avanço consistente da presença de mulheres no comando das empresas, ao mesmo tempo em que elas concentram até 72% das decisões de compra em moda e lar
A presença de mulheres no comando das empresas da indústria do vestuário brasileira mais que dobrou nos últimos 15 anos. Em 2025, 24,1% das empresas do segmento são lideradas por mulheres, frente a 9,8% em 2010, segundo dados inéditos do IEMI – Inteligência de Mercado. O movimento indica uma transformação gradual na estrutura de liderança de um dos principais elos da cadeia têxtil nacional.
Na indústria do vestuário, 24,1% das empresas foram lideradas por mulheres em 2025, quase duas vezes e meia o percentual registrado em 2010, quando esse índice era de 9,8%. O avanço também é observado nos segmentos industriais mais fragmentados e criativos da cadeia. Nas indústrias de Têxteis Lar, que incluem cama, mesa, banho, copa, cozinha e decoração, a presença feminina na liderança passou de 6,7% em 2010 para 18% em 2025. Já nas indústrias têxteis de Fios e Tecidos, o índice subiu de 4,6% para 7% no mesmo período.
Embora os percentuais ainda indiquem diferença relevante na ocupação dos cargos de comando, a trajetória demonstra uma transformação estrutural gradual, especialmente nos elos onde predominam empresas de menor porte e maior diversidade de modelos de negócio.
O contraste evidencia uma diferença marcante entre quem move o mercado consumidor e quem ocupa posições estratégicas nos segmentos estruturais da cadeia. “Existe um descompasso entre quem consome, quem trabalha e quem lidera em determinadas etapas da cadeia. Esse é um dado relevante para discutir competitividade, diversidade e inovação no setor”, avalia Marcelo Prado, consultor e diretor do IEMI – Inteligência de Mercado.
LIDERANÇA TAMBÉM NO CONSUMO
O avanço é ainda mais relevante quando observado em conjunto com o protagonismo feminino no consumo. Hoje, as mulheres concentram a maior parte das decisões de compra em moda e em diversas categorias de produtos para o lar, reforçando sua influência tanto na ponta do mercado quanto, cada vez mais, nos espaços estratégicos das empresas.
No vestuário, principal segmento da cadeia têxtil, as mulheres respondem por 67% das decisões de compra. Em calçados, são 65%. Nos segmentos de utilidades domésticas, representam 66%. Mesmo em categorias tradicionalmente associadas a decisões familiares, como mobiliário e colchões, a presença feminina é dominante, com 60% e 61%, respectivamente. Já em artigos decorativos, elas somam 59% dos compradores.
Os números reforçam um dado estratégico para o setor: o comportamento feminino é hoje o principal termômetro do varejo de moda e de parte significativa da indústria têxtil e do lar. “Quando dois terços do consumo de roupas e calçados estão concentrados nas mulheres, qualquer mudança de comportamento, renda ou percepção de valor impacta diretamente a produção, o varejo e o planejamento da indústria”, afirma Marcelo Prado.
O peso feminino nas decisões de compra influencia desde o desenvolvimento de produto até a gestão de estoques. Categorias com maior participação de consumidoras tendem a apresentar ciclos mais dinâmicos de renovação, maior variedade de coleções e pressão constante por inovação. Para fabricantes e varejistas, entender a mulher como agente econômica deixou de ser uma segmentação demográfica e passou a ser uma variável central de inteligência de mercado.
Em momentos de ajuste de renda ou mudança no padrão de consumo das famílias, oscilações no comportamento feminino costumam antecipar movimentos mais amplos do setor, afetando ritmo de produção, reposição de estoques e estratégias promocionais.
COMO AS MULHERES DITAM O MERCADO
O levantamento também destaca que, na indústria do vestuário, as mulheres figuram como o segundo principal pilar dos programas de inclusão social, com foco no combate a preconceitos e, especialmente, a casos de assédio. O dado conecta consumo, ambiente produtivo e governança corporativa, ampliando o debate para além do desempenho comercial.
Além disso, o protagonismo feminino também se reflete na base produtiva. As mulheres representam parcela significativa da força de trabalho nas confecções brasileiras, sobretudo em etapas como costura e acabamento. Essa presença nas duas pontas da cadeia, como consumidoras e como profissionais do setor, reforça a centralidade do recorte de gênero nas análises econômicas.
“Não se trata apenas de segmentação de público. Estamos falando de inteligência de mercado. Quem entende a mulher como agente econômica consegue planejar melhor produção, mix e canais de venda”, afirma Prado.
Em um setor que movimenta centenas de bilhões de reais por ano no Brasil, compreender o papel da mulher no consumo e na estrutura produtiva deixou de ser uma pauta sazonal e se consolidou como elemento estratégico para a indústria e o varejo.
Imagem: Freepik
