Por Laura Yamane
Na CASACOR São Paulo 2026, que estreou no dia 02 de junho e segue até o dia 09 agosto no Parque da Água Branca, em São Paulo, o arquiteto boliviano Eduardo Baldelomar apresenta o Co-Living Chiquitano, espaço que se tornou o mais visitado da mostra. Em 32 metros quadrados, Baldelomar trouxe ao Brasil a força ancestral da Chiquitânia, região de planície na Bolívia moldada pelo encontro entre povos indígenas e missionários jesuítas nos séculos XVII e XVIII.
O trabalho nasce de um mergulho pessoal do arquiteto em suas próprias raízes e da vontade de transformar a arquitetura em ferramenta de preservação cultural. Eduardo se aprofundou em pesquisas, conheceu artistas e artesãos locais, percorreu igrejas, povoados e centros históricos para compreender as diversas camadas culturais que moldaram a identidade chiquitana.
“Comecei essa incursão em novembro do ano passado e, desde então, fui quatro vezes à Chiquitânia. Cada viagem foi de grande aprendizado e tive a oportunidade de conversar com líderes indígenas e os próprios artesãos”, relata Baldelomar.
O ambiente reúne mais de 200 peças originais da Bolívia — pinturas, máscaras, instrumentos musicais, cerâmicas e, em especial, tecidos artesanais produzidos por comunidades indígenas. Cada fio tecido à mão carrega séculos de memória e traduz a economia criativa que sustenta famílias e preserva tradições.
Esses têxteis não são apenas ornamentos: são narrativas visuais que expressam cosmovisões, símbolos espirituais e o vínculo profundo com a natureza. Ao lado das igrejas barrocas da Chiquitânia — Patrimônio Mundial da UNESCO — e das mais de 3.000 partituras barrocas indígenas preservadas, os tecidos reafirmam que a cultura boliviana não se apaga, mas se reinventa.
O projeto de Baldelomar mostra que decorar é conservar. É transformar o design em resistência e dar voz às mãos que tecem o passado e o futuro. Uma celebração da Bolívia que pulsa em cada cor, em cada trama, em cada detalhe.


Fotos: Carolina Mossin e Laura Yamane

