O LADO INVISÍVEL DA MODA: O QUE ACONTECE COM BILHÕES DE PEÇAS DE ROUPAS QUE NÃO SÃO VENDIDAS

Indústria do vestuário enfrenta um desafio silencioso que movimenta bilhões de dólares todos os anos e levanta discussões sobre consumo, sustentabilidade e redistribuição inteligente de estoque

Por Leonardo Mencarini

A indústria da moda vive de velocidade. Novas coleções chegam às vitrines em ciclos cada vez mais curtos, tendências surgem e desaparecem em poucos meses, e marcas precisam antecipar comportamentos de consumo muito antes de saber se determinado produto realmente terá demanda.

O problema é que o consumidor raramente segue previsões exatas. E é justamente dessa distância entre expectativa e realidade que nasce um dos maiores dilemas silenciosos do setor: o estoque remanescente.

Todos os anos, bilhões de peças de roupa são produzidas, mas nunca chegam ao consumidor final. Muitas permanecem paradas em centros de distribuição e, em alguns casos, acabam até mesmo destruídas.

Apesar da dimensão do problema, o tema ainda é pouco debatido publicamente. Isso acontece porque o assunto envolve diretamente posicionamento de marca, estratégia comercial e percepção de valor. Ainda assim, os números mostram a relevância da questão. Segundo levantamento do Business of Fashion em parceria com a McKinsey, o mercado global gerou entre US$ 70 bilhões e US$ 140 bilhões em estoque excedente apenas em 2023, o equivalente a cerca de 5 bilhões de peças produzidas, mas não vendidas.

No Brasil, estima-se que esse desafio represente aproximadamente US$ 8 bilhões por ano, e o impacto vai muito além das perdas financeiras. Cada peça parada carrega custos ambientais importantes, relacionados ao consumo de água, energia, transporte e emissão de carbono ao longo de toda a cadeia produtiva.

Em um momento em que a indústria da moda já é uma das mais pressionadas por temas ligados à sustentabilidade, o desperdício de peças novas torna essa discussão ainda mais urgente.

Para o consumidor, a lógica parece simples: se há excesso de produtos, bastaria reduzir drasticamente os preços para vender tudo. Mas, dentro da indústria da moda, essa solução está longe de ser tão simples.

Marcas premium dependem diretamente da percepção de valor construída ao longo do tempo. Liquidações agressivas e frequentes podem enfraquecer posicionamento, gerar conflito com coleções atuais e comprometer a relação com canais tradicionais de venda.

O grande desafio histórico sempre esteve na escala dessa operação. Como conectar milhares de peças paradas a pequenos lojistas espalhados pelo país? Como entender quais produtos fazem sentido para cada região, perfil de consumidor ou tipo de loja? Como garantir que a redistribuição aconteça de forma controlada, eficiente e alinhada à estratégia da marca?

É justamente nesse ponto entre a tecnologia e estratégia, que é possível operar uma espécie de “escoamento invisível”. Em vez de disponibilizar descontos extremos diretamente ao público final, as marcas podem pulverizar essas peças em canais secundários, como outlets e brechós, principalmente fora dos grandes centros.

Essa estratégia permite preservar o posicionamento da marca, evitar concorrência interna com os canais tradicionais e recuperar parte da receita que estava imobilizada em estoque.

A partir dessa leitura, sistemas inteligentes conseguem direcionar estoques de maneira mais eficiente, organizando lotes personalizados para diferentes lojistas. Na prática, isso permite que peças paradas encontrem novos mercados sem que as marcas precisem comprometer seu posicionamento público ou criar competição direta com suas coleções atuais.

Mais do que uma solução comercial, trata-se de uma mudança de lógica. O estoque remanescente deixa de ser visto apenas como perda e passa a ser entendido como uma oportunidade: de receita, de eficiência e de construção de uma cadeia de moda mais inteligente.

Esse é o lado invisível da moda. Um mercado enorme, ainda pouco discutido, mas cada vez mais relevante para marcas, lojistas e consumidores.

E, na minha visão, o futuro da moda passa justamente por isso: encontrar caminhos mais eficientes para aquilo que já existe.

Leonardo Mencarini é CEO e cofundador do Mercado Único, plataforma B2B que conecta marcas de vestuário a lojistas selecionados, viabilizando a liquidação estratégica de estoques remanescentes com controle de distribuição, preservação de posicionamento e condições comerciais eficientes.

Imagem: Freepik (gerada por IA)