SUPER EL NIÑO BATE À PORTA

Retorno do evento climático extremo traz impactos também aos setores têxtil e de confecção

Que o planeta está passando por mudanças drásticas com a emergência climática não é novidade para ninguém, e neste ano de 2026 um personagem se destaca: o El Niño, evento climático que acontece com o aquecimento das águas do Oceano Pacífico, mas que agora vem com uma potência ainda maior devido a uma anomalia térmica no Pacífico Equatorial, que pode fazer com que a temperatura se eleve em ao menos 1,5 ºC acima da média – por isso os meteorologistas estão chamando de “super El Niño”. E se um El Niño já provoca grandes estragos, imagine um super.

“Em um cenário de mudanças climáticas, onde qualquer evento extremo fica ainda mais extremo, os efeitos de um El Niño também serão amplificados”, reforça Alexandre Nascimento, meteorologista e sócio-diretor da Nottus Meteorologia e Soluções Climáticas.

Ele elenca as principais características do fenômeno, tais como chuvas demais (principalmente no Sul do Brasil, abrangendo ainda São Paulo e Mato Grosso do Sul) e de menos (no Nordeste e em parte da região Norte), e mais calor do que o normal no restante do país.

“Quanto mais forte for o El Niño, mais evidentes e extremos podem ser as características acima. E, em um cenário de mudanças climáticas, isso é ainda mais amplificado. Ou seja, podem acontecer ondas de calor muito fortes no país, chuva em forma de pancadas intensas e rápidas, com granizo e ventos extremos no Sudeste e Centro-Oeste, secas prolongadas no Norte e Nordeste e chuvas muito elevadas no Sul”, detalha.

OS EFEITOS PARA OS SETORES TÊXTIL E DE CONFECÇÃO

Alexandre Nascimento destaca que, nos setores têxtil e de confecção, os efeitos podem variar de acordo com a região do país. Segundo o meteorologista, no Sul, os principais riscos estão associados ao excesso de chuva, que pode afetar tanto as atividades produtivas quanto a logística. Já nas regiões Norte e Nordeste, a redução das chuvas pode impactar atividades ligadas ao agronegócio e, no caso do Norte, comprometer a navegação em hidrovias, importantes para o transporte de cargas. “Nas demais regiões, temperaturas acima da média e a menor ocorrência de frio durante o inverno podem influenciar a demanda por produtos típicos da estação. Além disso, durante a primavera e o verão, há potencial para a ocorrência de eventos de chuva intensa em curtos períodos, acompanhados de ventos fortes e granizo, intercalados com semanas de calor e precipitações abaixo da média. Esse padrão pode trazer desafios adicionais para a produção, a armazenagem, a distribuição de mercadorias e a operação do varejo. Também podem ocorrer impactos logísticos decorrentes de eventos climáticos extremos, sobretudo nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste”, revela.

Para o meteorologista, esse cenário tende a pressionar custos ao longo da cadeia, desde matérias-primas de origem agrícola, como fibras naturais, couro e seda, até a produção de tecidos e artigos de vestuário.

“No varejo, a menor intensidade ou duração do frio pode afetar a demanda por produtos de inverno em comparação com o ano passado, quando as temperaturas mais baixas persistiram por um período mais prolongado. Esse contexto exige maior flexibilidade no planejamento de estoques, campanhas comerciais e lançamentos de coleções.”

DÁ PARA AMENIZAR?

Quando se fala em eventos climáticos, é difícil cravar todos os efeitos que podem acontecer, mas dá para tomar atitudes para amenizá-los.

Para os produtos de inverno, Alexandre lembra que as possibilidades de ajuste são mais limitadas neste momento, uma vez que as decisões relacionadas ao planejamento da temporada, como produção, compras e estoques, costumam ser tomadas com meses de antecedência. Ainda assim, as empresas podem buscar adequar suas estratégias comerciais e direcionar esforços para produtos de verão e para as próximas coleções.

“Quanto às operações logísticas, à infraestrutura e ao consumo de energia, é importante acompanhar continuamente as condições e seus impactos sobre as atividades. Esse cenário também evidencia o valor de informações e previsões climáticas com maior antecedência, que permitem às empresas antecipar situações, reduzir riscos e aprimorar seus processos de tomada de decisão. Em um setor altamente sensível às variações de temperatura, chuva e eventos extremos, como o têxtil e de confecção, a inteligência climática deixa de ser apenas uma ferramenta de monitoramento e passa a ser um instrumento estratégico para reduzir riscos, aumentar a eficiência operacional e aprimorar a tomada de decisão ao longo de toda a cadeia produtiva e comercial.”

Imagem: Freepik

Fonte: Nottus Meteorologia e Soluções Climáticas