Programa Map The System, da Universidade de Oxford, tem projeto de estudantes da USP sobre sustentabilidade aplicada à moda
Aconteceu em Oxford (Inglaterra), entre os dias 9 e 12 de julho, a final do Map the System 2026, concurso anual que capacita uma nova geração de líderes com a mentalidade sistêmica necessária para transformar o nosso mundo, enfrentando, de forma aprofundada, os complexos problemas socioambientais e econômicos.
Criado e organizado pelo Skoll Centre for Social Entrepreneurship, que faz parte da Saïd Business School, a escola de negócios da Universidade de Oxford, o programa estabeleceu parcerias com mais de 140 instituições em todo o mundo e preparou mais de 15 mil estudantes com as habilidades e as ferramentas para se tornarem agentes de mudança mais eficazes.
E entre as selecionadas estão quatro mestrandas e doutorandas brasileiras pela Universidade de São Paulo, representando a entidade: Gabryella Cerri Mendonça, Clara Fagundes Oliveira Portela, Ariane Domborovski e Heloisa Martins Barboza, que estiveram, em julho, na cidade de Oxford, no Reino Unido, para apresentar a pesquisa Beyond the labels: a deep dive into the socio-environmental nuances of the brazilian textile sector (Além dos rótulos: uma análise detalhada das nuances socioambientais do setor têxtil brasileiro).
“Representar a USP em Oxford é uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, um reconhecimento da relevância do setor têxtil brasileiro e do potencial que temos para liderar debates sobre inovação, sustentabilidade e impacto social. Sinto muito orgulho dessa conquista, de poder levar discussões sobre esse tema para palcos internacionais, principalmente por atuar com sustentabilidade no setor têxtil e viver os desafios no meu dia a dia”, diz Gabryella Cerri Mendonça, doutoranda em engenharia de produção com foco em economia circular no setor têxtil, que possui mais de seis anos de experiência profissional em uma grande empresa têxtil brasileira, atuando em iniciativas de economia circular, estratégias de ESG (ambiental, social e governança), governança da sustentabilidade, engajamento com cadeias de suprimentos responsáveis e operações industriais, além de membro do Comitê de Sustentabilidade da Abit.
“É uma alegria imensa representar a USP em uma das universidades mais prestigiadas do mundo, levando a força da pesquisa brasileira para além das nossas fronteiras. Fazer isso ao lado de outras mulheres torna essa conquista ainda mais significativa, reafirmando que nossos espaços na Ciência são construídos com competência, colaboração e coragem de abrir caminhos para as próximas gerações”, complementa Ariane.
Heloisa conta que a pesquisa, pautada na exploração do trabalho e na informalidade e como isso está relacionado ao modelo linear de produção e consumo, bem como à economia circular, aprofunda a compreensão dos diversos stakeholders envolvidos, seus interesses e o poder de atuação no setor, analisando a complexidade econômica e os desafios relacionados à proteção aos direitos dos trabalhadores. Esperamos que, com a divulgação desse trabalho, consigamos evidenciar as atividades e gaps desse sistema, estimulando ações e oportunidades ao longo de seus diferentes elos para um setor cada vez mais sustentável”, conta Heloisa.
Gabryella complementa explicando que o foco foi analisar a indústria têxtil brasileira pela perspectiva do pensamento sistêmico e, inicialmente, investigaram como as questões ambientais de direitos humanos, principalmente relacionados à informalidade, condições de trabalho, modelo de produção e consumo estão profundamente conectados. O intuito, segundo a pesquisadora, não foi buscar culpados, mas, sim, compreender estruturalmente as causas que perpetuam esses desafios e, ao mesmo tempo, identificar os caminhos para uma transformação realmente mais justa e sustentável para todo o setor.
“Os principais desafios que conseguimos identificar foram a exploração do trabalho e a informalidade, principalmente entre trabalhadores migrantes e populações vulneráveis, a baixa rastreabilidade da cadeia produtiva e como isso dificulta a identificação das violações dos direitos humanos; a questão do modelo linear de produção e consumo, que é baseado em produzir, consumir e descartar de forma muito rápida; e também a pressão pela redução de custos, que acaba incentivando as terceirizações e a precarização do trabalho”, revela. Sobre a baixa circularidade, elas constataram que menos de 1% dos resíduos têxteis retorna realmente ao ciclo produtivo, e que as falhas regulatórias e de governança acabam dificultando a fiscalização e a responsabilização de todos os atores da cadeia produtiva.

“O que tornou esse projeto de fato especial foi que conseguimos mostrar que os problemas da indústria têxtil não serão resolvidos enquanto ficarmos olhando para eles de forma isolada, pois fazem parte de uma mesma engrenagem. A mesma estrutura econômica que gera desperdício dos recursos naturais também acaba favorecendo as condições precárias de trabalho. E as soluções que levantamos como alavanca de transformação foram: a implementação de due diligence, obrigatória em direitos humanos e meio ambiente para as empresas; a ampliação da rastreabilidade da cadeia produtiva, incluindo, por exemplo, o passaporte digital de produto e a responsabilidade estendida do produtor também para os resíduos têxteis, com a criação de políticas públicas, bem como o fortalecimento da fiscalização trabalhista; o desenvolvimento de infraestrutura para a economia circular de resíduos têxteis, olhando para a reciclagem e o reúso de materiais; maior transparência e distribuição mais justa do valor também ao longo da cadeia, a fim de evitar a pressão realizada, principalmente, por varejistas; e apoio à formalização de trabalhadores e pequenos fornecedores. Por fim, mas não menos importante, a educação do consumidor, para poder reduzir um pouco a lógica do hiperconsumo e focar mais no consumo consciente.
Vale destacar que o Map the System não premia “a melhor solução pronta”, mas, sim, “a melhor compreensão de um problema complexo”.
Para Clara Fagundes, “participar de um debate global sobre pensamento sistêmico, contribuindo para a busca de melhores soluções de trabalho para pessoas em situação de vulnerabilidade, é uma grande honra e responsabilidade. A análise crítica e o diálogo coletivo são fundamentais para o surgimento de novas soluções, e integrar esse processo é uma experiência profundamente enriquecedora”.
