COMO O BRASIL LIDA COM O DESCARTE E A RECICLAGEM DE EPIs?

Quatro em cada 10 indústrias ainda não identificam com clareza barreiras educacionais e culturais à adoção da economia circular; logística, custos e dados são entraves

Da fabricação ao descarte, as vestimentas de proteção utilizadas em ambientes industriais, laboratoriais e hospitalares passaram a ocupar um espaço maior nas discussões sobre sustentabilidade diante dos desafios relacionados à reciclagem, logística reversa e destinação correta de resíduos potencialmente contaminados.

Em setores que exigem controle rigoroso de contaminação, como a indústria farmacêutica, biotecnológica, laboratórios de pesquisa e determinadas áreas hospitalares, já existem projetos específicos de circularidade para as vestimentas utilizadas. Nesses casos, as iniciativas incluem a coleta segregada e a logística reversa para garantir a reciclagem dos materiais.

Ainda assim, a ampliação desses processos esbarra em um gargalo cultural e estrutural: levantamento recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou que 43% das indústrias brasileiras sequer conseguem identificar com clareza quais são as suas barreiras para implementar a economia circular.

Para a engenheira de materiais Priscila Akiti, especialista em EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), a discussão sobre sustentabilidade na área de vestimentas de proteção envolve toda a cadeia, desde a fabricação até a gestão adequada dos resíduos após o uso.

“O desafio é conciliar proteção ao trabalhador, desempenho do produto e redução dos impactos ambientais, além de estabelecer processos viáveis de segregação e destinação dos materiais de acordo com sua aplicação e classificação”, afirma Priscila, que é especialista técnica da América Latina de Tyvek® Garments da DuPont.

DADOS

Segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, crescimento de 0,75% em relação ao ano anterior. Desse total, 76,4 milhões de toneladas foram coletadas, sendo que 41,4 milhões receberam destinação ambientalmente adequada em aterros sanitários.

O desafio também está nas informações: há pouca disponibilidade de dados consolidados e públicos sobre a destinação de resíduos provenientes de EPIs no Brasil, apesar de isso fazer parte da rotina de milhares de empresas e trabalhadores em operações que exigem o uso de vestimentas de proteção e controle de contaminação.

A destinação de resíduos gerados após o uso de EPIs e vestimentas de proteção deve seguir a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) e os critérios de classificação estabelecidos pela ABNT NBR 10004. Dependendo da aplicação e do tipo de contaminação, esses materiais podem ser classificados como resíduos perigosos ou não perigosos, exigindo procedimentos específicos de segregação, armazenamento, transporte e destinação final.

CARACTERÍSTICAS

Além dos aspectos ambientais, a gestão dos resíduos gerados após o uso das vestimentas de proteção também envolve desafios operacionais e econômicos. A classificação adequada dos resíduos, sua segregação e a definição da destinação correta são etapas fundamentais para garantir conformidade regulatória e eficiência nos processos.

“Após o uso, a destinação das vestimentas deve considerar fatores como o tipo de aplicação, o nível de contaminação e a classificação do resíduo. Quando tecnicamente viável, a reciclagem depende de processos adequados de segregação e de infraestrutura especializada para o reaproveitamento dos materiais. Em alguns casos, componentes como zíperes, elásticos e outros aviamentos também podem demandar etapas adicionais de separação para viabilizar esse processo”, afirma Priscila Akiti.

Imagem: Magnific