Aprovação da MP pode ameaçar a sobrevivência de lojas e confecções do Bom Retiro, diz entidade
Um dos maiores polos atacadistas de moda do país, o Bom Retiro, em São Paulo, concentra grande parte de seus produtos na faixa de até US$ 50 e enfrenta a concorrência de compras internacionais que, nesse mesmo valor, são beneficiadas pela isenção prevista na MP nº 1.357/2026.
Diante disso, a Associação Brasileira da Indústria do Vestuário (ABIV), em nome de sua presidente, Cinthia Kim, manifesta seu repúdio à aprovação da MP nº 1.357/2026 pelo Congresso Nacional, sem uma resposta efetiva à desigualdade tributária enfrentada pelas empresas brasileiras. O texto, que segue para sanção presidencial, mantém a possibilidade de isenção do Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50, enquanto a produção nacional continua arcando com os tributos e os custos de operar no País.
Para o Polo de Moda do Bom Retiro, representado pela ABIV, essa decisão atinge uma realidade concreta: grande parte dos produtos comercializados no Polo está justamente na faixa de preço beneficiada pela medida. São confecções e lojas que disputam o mercado com mercadorias importadas, mas não dispõem das mesmas condições tributárias.
O Polo abastece boa parte do atacado de moda nacional, movimenta R$ 5,3 bilhões por ano na produção de vestuário, fabrica 50,5 milhões de peças anualmente e concentra 19,4 mil trabalhadores em um único bairro da capital paulista, segundo o Censo do Bom Retiro – Indústria e Varejo 2025, encomendado pela ABIV em parceria com o IEMI – Inteligência de Mercado.
Cerca de 95% das confecções são pequenas e médias empresas e 97% têm produção própria. Enfraquecer essa atividade significa comprometer também uma rede de fornecedores, transportadores e prestadores de serviços que depende da circulação de compradores no bairro.
A ABIV considera inaceitável que a manutenção da competitividade desses negócios permaneça sem solução. Empresas que assumem os custos de produzir, contratar e cumprir suas obrigações no Brasil não podem continuar sendo colocadas em desvantagem pela própria política tributária brasileira.
Já há lojistas relatando queda nas vendas nos últimos meses. E a preocupação não se limita à perda de vendas. Está na capacidade de manter equipes, renovar estoques, investir em novas coleções e dar continuidade à produção. Para pequenos e médios negócios, margens cada vez mais pressionadas reduzem as possibilidades de investimento e colocam em risco a sustentabilidade das operações.
Segundo Cinthia, a ABIV cobra medidas concretas para reduzir essa desigualdade, acompanhadas de fiscalização efetiva das mercadorias que entram no País. O acesso ao mercado brasileiro deve exigir o cumprimento das normas aplicáveis aos produtos, com controle de irregularidades e responsabilização dos envolvidos.
Ela reforça que, diariamente, o Bom Retiro demonstra a capacidade da moda brasileira de produzir, inovar e abastecer lojistas de diferentes regiões. Preservar essa capacidade exige mais do que reconhecer sua importância: exige condições para que as empresas continuem trabalhando e gerando empregos.
