Fios e fibras derivados de petróleo sofrem interferências na produção e distribuição e resultam em preços mais altos
Uma das questões geopolíticas que vêm escalando há mais tempo do que o previso é a da crise do petróleo, com os conflitos estadunidenses e israelenses junto ao Irã e o fechamento do estreito de Ormuz, principal rota de escoamento da commoditie, por onde passam 20% do fluxo mundial de navios petroleiros.
Claramente, os impactos e os desafios que essa situação gera se espalham para muito, muito além dos combustíveis, que ficam mais escassos e caros: viagens aéreas foram reduzidas, alta nos preços dos alimentos, nos artigos de higiene pessoal e até em um mero chicletinho. Nos setores têxtil e de confecção, isso também se refletiu: além do fator logístico, com o aumento do preço de fretes de importação e movimentações domésticas de entregas dentro do país, tudo o que depende de petróleo e seus derivados para fabricação acendeu o sinal de alerta. Pigmentos e corantes para tingimento têxtil são um desses produtos; e o principal e mais impactante, o poliéster, que compõe mais de 70% dos fios têxteis, também.
“Vivemos um período em que a volatilidade se tornou praticamente o ‘novo normal’. As tensões geopolíticas afetam o petróleo, o gás, os fretes, os seguros e as rotas marítimas. E isso chega à cadeia têxtil porque uma parcela importante das fibras químicas e sintéticas, como o poliéster e a poliamida, tem relação direta ou indireta com a cadeia petroquímica. Mesmo quando o preço do petróleo recua, a volatilidade permanece elevada, e isso dificulta planejamento, formação de estoques e precificação”, avalia o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). “A indústria procura absorver parte dessas oscilações por meio de produtividade, gestão de estoques e negociação com fornecedores. Mas choques prolongados acabam pressionando custos ao longo de toda a cadeia”, completa.
GRANDES PRODUTORES COMENTAM
Como atual presidente da Associação Brasileira de Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas (Abrafas) e diretor comercial da The LYCRA Company para a América do Sul, Carlos Fernandes reforça o posicionamento de Pimentel sobre os efeitos da geopolítica na escalada de preço do petróleo sobre as fibras têxteis artificiais e sintéticas, e conta como tem atuado junto à empresa.
“Sendo um fornecedor global, com atuação e produção local, conseguimos minimizar os impactos no fornecimento e nos custos para nossos clientes e parceiros. Desde o começo da crise do petróleo, temos usado nossa abrangência global a nosso favor, planejando com antecedência e aprimorando a eficiência produtiva. Em alguns casos, alteramos rotas e entregas de matérias-primas, gerenciamos estoques e custos de cada etapa e trabalhamos com nossos fornecedores de longa data para minimizar os impactos sobre nossa competitividade e nosso fornecimento. Todas essas ações resultaram em aumento da produção em nossas plantas localizadas nas Américas para atender às demandas de nossos clientes. Essas são as vantagens de termos uma cadeia completa de fornecimento local e parcerias de longa data”, revela.
Paulo de Biagi, general manager e CBO da NILIT na América Latina, uma das maiores produtoras globais de poliamida 6.6, observa que os impactos variam entre os diferentes segmentos da indústria, mas reforçam a importância de planejamento, flexibilidade e capacidade de adaptação ao longo da cadeia.
“Empresas com operações globais, capacidade produtiva diversificada, planejamento de longo prazo e suporte local, como a NILIT, estão mais bem posicionadas para lidar com essas oscilações. Estamos operando em um ambiente que exige monitoramento constante das condições de mercado, mas nossas operações globais continuam funcionando normalmente. Ao longo dos anos, desenvolvemos planos robustos de continuidade de negócios e construímos uma estrutura operacional global capaz de responder rapidamente e atuar de forma eficaz em diferentes cenários. Assim, continuamos atendendo nossos clientes sem interrupções.”
Paulo ainda revela que, além da estratégia de produção diversificada, os investimentos recentemente realizados na expansão da capacidade produtiva, em tecnologias e no fortalecimento de suas cadeias de suprimentos regionais, incluindo o Brasil, ampliaram ainda mais a capacidade de resposta da NILIT e contribuíram para a segurança do abastecimento. “Essa abordagem fortalece nossa resiliência operacional e nos permite minimizar potenciais impactos para os clientes”, pontua.
“Em relação aos custos, seguimos focados no aumento da eficiência operacional, na redução de desperdícios e na otimização contínua dos processos, buscando mitigar impactos externos sempre que possível. Ao mesmo tempo, permanecemos comprometidos com o desenvolvimento de uma cadeia têxtil baseada em qualidade e inovação, trazendo para o Brasil tecnologias avançadas em náilon 6.6 por meio da marca SENSIL®, que alia alto desempenho e sustentabilidade e está presente nas mais relevantes marcas globais de moda esportiva, um dos principais segmentos em que atuamos, entre outros da moda e do vestuário. Acima de tudo, nosso compromisso é manter transparência, previsibilidade e parcerias de longo prazo com nossos clientes.”
QUAL A ALTERNATIVA?
Para minimizar os impactos dessa questão, o diretor-superintendente da Abit, elenca que a diversificação de fornecedores, melhor gestão de estoques, contratos de médio e longo prazo, quando possíveis, eficiência energética, redução de desperdícios e desenvolvimento de matérias-primas alternativas são as principais ferramentas.
“Quanto mais diversificada, integrada, moderna e competitiva for nossa cadeia produtiva doméstica, maior será nossa capacidade de enfrentar choques externos. E o Brasil possui ainda uma vantagem estratégica: temos uma cadeia têxtil completa e uma grande produção de fibras naturais, especialmente algodão”, destaca Pimentel.
