Por Laura Yamane
Em uma edição marcada pela valorização da identidade nacional, algumas coleções apresentadas na São Paulo Fashion Week N61 foram além da estética para abordar temas como sustentabilidade, economia criativa, cultura popular e preservação dos saberes artesanais. Entre os destaques da temporada, Catarina Mina, Foz, Sou de Algodão e Santa Resistência apresentaram diferentes olhares sobre a riqueza cultural brasileira, demonstrando que a moda pode ser também ferramenta de transformação social.
A cearense Catarina Mina se destacou por apresentar um dos trabalhos mais completos da temporada. Com a coleção “Bonito pra Chover”, a marca celebrou a relação do sertão nordestino com a chuva e reuniu técnicas artesanais de comunidades do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí. Rendas, crochês, tecelagens e fibras naturais deram forma a peças que unem tradição e contemporaneidade. O desfile também evidenciou práticas de moda regenerativa por meio do reaproveitamento de resíduos têxteis da indústria, transformados em novas criações através do upcycling. Mais do que uma coleção, a proposta mostrou como a economia criativa pode contribuir para preservar técnicas ameaçadas de desaparecimento e gerar renda para dezenas de artesãs.
Outro grande destaque foi a Foz, do estilista Antônio Castro. Em “Expresso Maravilha”, a marca transformou a passarela numa emocionante homenagem à cultura nordestina e às histórias de migração. Bordados, rendas e manualidades produzidas por comunidades artesanais de Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte foram incorporados às peças, reafirmando o compromisso da grife com a valorização dos territórios e dos saberes tradicionais. A utilização de materiais reaproveitados e de processos de upcycling reforçou o papel da sustentabilidade como parte essencial da criação, demonstrando como a moda pode promover inclusão, renda e preservação cultural.
” O futuro da moda nasce das raízes da cultura”
A coleção “Cartas de Algodão”, criada por Ronaldo Fraga para celebrar os dez anos do projeto Sou de Algodão, apresentou uma delicada reflexão sobre memória e afeto. Inspirado em cartas manuscritas, enxovais e lembranças familiares, o estilista valorizou o algodão brasileiro por meio de bordados, rendas e trabalhos artesanais que remetem às tradições populares. O desfile ressaltou a importância do fazer manual e da produção nacional, reforçando a ligação entre moda, identidade e patrimônio cultural.
A paleta de cores é construída a partir de tons terrosos e naturais, chamados de “falsos brancos” pelo estilista – como marfim, milka, coco queimado e madeira -, pontuada por acentos de cor que aparecem ao longo dos looks. As silhuetas alternam estruturas mais rígidas, como armações e colarinhos de inspiração militar, a momentos de fluidez, com mangas bufantes, camadas soltas e franjas.
Já a Santa Resistência, de Mônica Sampaio, levou à passarela a coleção “Otelo Brasileiro, uma Paixão em Verde e Rosa”. Misturando referências de Shakespeare com a história da Estação Primeira de Mangueira, a estilista construiu uma narrativa que exaltou a literatura, o samba e a cultura popular. Bordados com pedrarias, tapeçarias, trabalhos manuais e referências à tradição carnavalesca mostraram a força da criatividade brasileira e sua capacidade de transformar manifestações culturais em linguagem contemporânea de moda.
Entretanto, Catarina Mina e Foz foram as coleções que mais sintetizaram os temas de sustentabilidade, economia criativa, artesanato colaborativo e upcycling, mostrando como a moda pode gerar impacto positivo sem abrir mão da identidade cultural. Em comum, todas reforçaram uma mensagem importante: o futuro da moda brasileira passa pela valorização das pessoas, dos territórios e dos saberes que fazem do país uma referência única em criatividade e diversidade.
Da preservação das rendas e bordados à reinvenção de materiais descartados, os desfiles comprovaram que inovação e tradição não são opostos.




O BRASIL TRANSFORMA SUA MEMÓRIA EM CRIAÇÃO E SUA HERANÇA EM INOVAÇÃO
Ao reunir memória, artesanato, sustentabilidade, reciclagem, upcycling e identidade cultural, as coleções de Catarina Mina, Foz, Sou de Algodão e Santa Resistência demonstram que a moda brasileira possui uma das mais ricas fontes de inspiração do mundo: o seu próprio patrimônio cultural. Valorizando as manualidades, os territórios, as comunidades artesanais e os saberes transmitidos entre gerações, essas marcas mostram que tradição e inovação podem caminhar lado a lado. Ao transformar resíduos têxteis em novas peças, preservar técnicas artesanais e fortalecer a economia criativa, reafirmam o papel da moda como agente de desenvolvimento cultural, social e sustentável, evidenciando que a cultura popular e a sustentabilidade são caminhos complementares para construir um futuro mais consciente e inclusivo.
Mais do que tendências de moda, esses desfiles se apresentam como um verdadeiro campo de pesquisa para estilistas, estudantes, pesquisadores e criativos que visitam o Brasil em busca de referências autênticas. Em um cenário global que valoriza cada vez mais a originalidade e a sustentabilidade, a cultura popular brasileira, suas técnicas artesanais, seus materiais, suas histórias e seus territórios tornam-se fontes inesgotáveis de conhecimento e inspiração.


Fotos: Zé Takahashi / @agfotosite
