Première Vision Paris sinaliza uma nova etapa para a indústria, na qual origem, inovação, desempenho e viabilidade precisam ser analisados em conjunto
A escolha de um tecido costuma estar concentrada principalmente em critérios como estética, toque, preço, disponibilidade e desempenho. Esses fatores continuam essenciais, mas já não são suficientes para orientar o desenvolvimento de uma coleção. A edição de setembro de 2026 da Première Vision Paris, realizada entre os dias 1º e 3 de setembro, mostrou que a matéria-prima passou a ocupar uma posição ainda mais estratégica dentro da indústria da moda.
Ao apresentar as direções internacionais para o outono-inverno 2027/28, correspondente ao Inverno 28 no Brasil, a feira colocou os materiais no centro das discussões criativas, produtivas e ambientais. Para Symone Rech, pesquisadora de moda, cientista comportamental e diretora da New&Now, a principal transformação não está necessariamente no surgimento de uma fibra específica, mas na forma como a indústria começa a decidir quais materiais utilizar.
“A tendência mais importante não é uma fibra específica. É a mudança na maneira de decidir. A indústria começa a sair das classificações simplificadas para analisar o impacto, a função e a viabilidade real de cada material”, afirma.
Conceitos como natural, reciclado, regenerativo, biodegradável ou desenvolvido a partir de resíduos continuam importantes, mas deixam de funcionar isoladamente como indicativo de uma escolha mais adequada. Origem, processo de transformação, consumo de recursos, durabilidade, desempenho, disponibilidade, escala e possibilidade de reciclagem passam a fazer parte de uma mesma equação.
ESCOLHER MATERIAIS EXIGE UMA ANÁLISE MAIS AMPLA
Um dos exemplos apresentados na Première Vision foi a Fibers & Materials Matrix, ferramenta que reúne 60 materiais divididos em 12 famílias e propõe uma avaliação baseada em diferentes critérios. A lógica reforça um ponto cada vez mais relevante para o setor: não existe uma matéria-prima ideal para todas as aplicações.
Um material pode apresentar vantagens ambientais em determinada etapa da cadeia e, ao mesmo tempo, enfrentar limitações de escala, resistência, custo ou disponibilidade. Outro pode entregar elevado desempenho técnico, mas depender de processos de transformação mais complexos.
Para Symone, essa mudança também exige uma relação mais próxima entre confecções e fornecedores. O desenvolvimento deixa de depender somente de composição e preço e passa a envolver questões relacionadas à origem, certificação, processamento, comportamento durante o uso e capacidade de produção.
“A inovação só se torna relevante quando consegue chegar ao produto. Nem tudo o que surpreende em uma feira internacional está pronto para ganhar escala ou se adaptar imediatamente ao mercado brasileiro. É preciso separar aquilo que é experimentação daquilo que já pode orientar uma decisão”, explica.
Essa lógica também aparece no tema central da temporada, denominado Living Matter, ou Matéria Viva. A proposta coloca a matéria como parte ativa da identidade do produto. Textura, irregularidades, marcas do tempo, acabamentos lavados e transformações passam a carregar valor estético, funcional e emocional.
Dentro dessa direção, Matter of Time valoriza memória, permanência e materiais capazes de envelhecer com identidade; Wild Matter aproxima tecnologia e sistemas vivos, com pesquisas envolvendo micélio, algas, fermentação e biomateriais; enquanto Matter of Ease aponta para tecnologias mais discretas, incorporadas para oferecer conforto, proteção e desempenho sem necessariamente imprimir uma aparência técnica às peças.
DA TENDÊNCIA AO DESENVOLVIMENTO DE PRODUTO
A principal consequência dessa mudança está no desenvolvimento das coleções. A matéria-prima deixa de entrar apenas como suporte para uma cor, uma estampa ou uma modelagem e começa a interferir diretamente na função e no posicionamento do produto. Gramatura, textura, caimento, conforto térmico, resistência, acabamento e comportamento ao longo do uso ajudam a determinar tanto a experiência do consumidor quanto o valor percebido de uma peça.
Uma superfície marcada pela passagem do tempo pode contribuir para um produto com maior carga emocional. Um tecido com propriedades de conforto pode responder à busca por bem-estar. Já um biomaterial experimental pode funcionar como importante elemento de pesquisa ou imagem, mas ainda não apresentar a escala necessária para uma coleção comercial.
“Novidade não é automaticamente direção. Uma matéria-prima pode ser fascinante como pesquisa, mas ainda apresentar riscos de custo, fornecimento ou desempenho. A escolha mais estratégica é aquela que equilibra inovação, identidade de marca, capacidade produtiva e expectativa do consumidor”, avalia Symone.
No mercado brasileiro, a leitura precisa ainda ser adaptada ao clima, à estrutura produtiva, à faixa de preço e ao comportamento local. Materiais mais leves, superfícies táteis, tecnologias ligadas ao conforto, acabamentos que revelem a passagem do tempo e soluções com maior rastreabilidade aparecem entre os caminhos com potencial de aplicação.
“O futuro dos materiais não será definido por uma única fibra ou solução universal. O que muda é a capacidade de comparar possibilidades, compreender seus impactos e transformar pesquisa em produtos coerentes, desejáveis e comercialmente viáveis”, conclui Symone.
Foto: Divulgação
