DESFILE NO LIXÃO DO ATACAMA

ONG Desierto Vestido realiza Atacama Fashion Week e faz alerta global sobre o descarte incorreto de roupas; objetivo da iniciativa é trazer o senso de urgência da situação

ARMARINHOS 25
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Na cidade de Alto Hospício, nos arreadores do Deserto do Atacama, no Chile, uma montanha formada por mais de 59 mil toneladas de peças de roupas, entre sapatos, camisetas, casacos, vestidos e outros trajes, já pode ser vista do espaço. As imagens reveladas via satélite poderiam apontar mais um daqueles míticos cenários de filme latino-americano, mas, na realidade, é um alerta social e ambiental que mostra os perigos do consumo (e da produção) desenfreado de itens por tendências de moda. Com o objetivo de conscientizar e trazer à tona a real dimensão deste problema para diversos públicos, a ONG Desierto Vestido, em parceria com o Fashion Revolution Brasil e Instituto Febre, promovem o Atacama Fashion Week.

Fotos: Mauricio Nahas

No mundo da moda esse problema já é conhecido, mas nada de muito efetivo é feito pelos principais envolvidos. Por isso, a iniciativa traz o que o universo fashionista sempre presta muita atenção: um evento ao estilo das principais semanas de moda que acontecem em Paris, Milão, São Paulo e Londres. O Atacama Fashion Week promoveu um desfile de moda em pleno lixão do Atacama, com modelos vestindo looks feitos por produtores a partir de roupas despejadas no local. Junto da ação na passarela, foi feito um editorial fotográfico assinado por Mauricio Nahas, fotógrafo premiado, com mais de 30 anos de carreira.

Segundo a porta-voz da Desierto Vestido, ONG que historicamente tem tentado buscar essa solução local, a ideia do projeto não é pressionar um setor específico: é clamar por forças conjuntas a partir de um envolvimento público-privado por meio de um manifesto artístico.

“Estamos aqui todos os dias do ano nesta luta difícil. E, dia após dia, vemos o problema se agravar. Precisávamos promover algo grandioso para chamar a atenção de todos os agentes do problema e discutirmos uma solução. O Atacama não pode mais esperar”, ressalta Ángela Astudillo, cofundadora da Desierto Vestido, organização sem fins lucrativos dedicada à reciclagem de têxteis.

“Ao mesmo tempo que podemos ver uma foto no espaço, o cemitério de roupas é uma problemática ainda muito silenciosa. São lotes de peças de baixa qualidade ou danificadas, herdadas do mercado fast fashion dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia. A maioria das peças leva até 200 anos para se desintegrar. A emergência é climática, também”, completa.

Para evitar o aumento de 1,5ºC e o agravamento da crise climática, o setor da moda terá que reduzir suas emissões pela metade até 2030, de acordo com informações do instituto Febre, organização voltada à justiça climática para as mulheres da moda e apoiadora do projeto. A iniciativa também traz holofote a um problema recorrente no Deserto do Atacama: queimas clandestinas são realizadas nos montantes de roupas, que eventualmente também são enterradas no local.

“É crucial uma mudança sistêmica na indústria da moda, e como cidadãos, todos temos um papel a desempenhar. Das marcas, queremos a responsabilização e compromissos robustos. Dos governos, a missão é reivindicar políticas públicas e fiscalizações. Com a sociedade civil, o nosso papel é disseminar informações e impulsionar ações de mobilização”, destaca Fernanda Simon, diretora-executiva do Fashion Revolution Brasil, braço brasileiro do maior movimento ativista da moda no mundo.

“Mesmo com todos os seus impactos, o setor da moda não é incluído com sua devida responsabilidade na agenda política quando se trata de abordar a crise climática”, completa Eloisa Artuso, cofundadora do Instituto Febre.

O desfile está disponível no site oficial da ação Atacama Fashion Week, com comentários de influenciadores de moda, comportamento e sustentabilidade. Esse mesmo ambiente hospedará dados importantes e atualizados sobre a causa, bem como caminhos para a população em geral colaborar. A campanha marcará presença na América do Sul, EUA e Europa.

A rede de parceiros do Atacama Fashion Week conta também com o apoio da agência Artplan, que desenvolveu toda a concepção criativa do projeto e da produtora de vídeo Sugarcane Filmes.