Imagem da mostra Natureza Tecida: Somos um único fio, de Sandra Anselmi, com fios da EuroFios. / Divulgação
Por Laura Yamane
A união entre a escala industrial da EuroFios e a sensibilidade artística de Sandra Anselmi revela que a sustentabilidade no setor têxtil vai além da técnica: é uma revolução cultural, estética e social.
A moda contemporânea vive sob o signo da urgência. Conciliar estética, inovação tecnológica e responsabilidade ecológica deixou de ser um diferencial para se tornar o eixo central de sobrevivência do setor. Diante do desafio global de mitigar o desperdício, a resposta mais potente tem surgido do encontro entre a precisão industrial e a liberdade da arte.
A força dessa sinergia se materializa de forma exemplar ao aproximarmos dois projetos brasileiros distintos, mas profundamente conectados pelo mesmo propósito de transformar resíduos em futuro: a operação de alta performance da EuroFios (SC) e a potência poética da artista gaúcha Sandra Anselmi (RS). Juntos, eles provam que o fio que costura a economia circular é, ao mesmo tempo, técnico, humano e simbólico.
EUROFIOS: ENGENHARIA VERDE E ALTA PERFORMANCE DA RECICLAGEM
No coração de Santa Catarina, a EuroFios consolidou-se, desde sua fundação em 2004, como uma das principais referências globais em reciclagem industrial de fibras. A empresa nasceu com a missão clara de dar um destino nobre e circular aos resíduos gerados pelo polo têxtil, estruturando uma operação que serve de modelo para a cadeia de suprimentos global.
O grande diferencial da EuroFios reside na sua capacidade de verticalização produtiva. A companhia domina todo o ciclo de reaproveitamento: desde a coleta e o desfibramento dos resíduos até a sua transformação em novos fios reciclados de alto valor agregado. Todo esse processo é ancorado em uma tecnologia rigorosamente limpa — um método 100% mecânico que dispensa o uso de água ou insumos químicos, garantindo uma pegada com baixíssima emissão de carbono.

Essa excelência operacional é chancelada por certificações internacionais de peso, como a Global Recycled Standard (GRS), que atesta a rastreabilidade e o compromisso socioambiental de sua produção. Através de marcas consolidadas como a EuroRoma (voltada ao artesanato), a Retêxtil (focada na gestão de reciclagem) e a Infinitex (desenvolvimento de fios de alta performance), a EuroFios ultrapassa as fronteiras da manufatura pura. Ao abastecer designers, tecelagens e artesãos com insumos sustentáveis, ela atua como um motor invisível que irriga e viabiliza a economia criativa do país.
SANDRA ANSELMI: A ARTE QUE DÁ CORPO E ALMA À INTERDEPENDÊNCIA
Se a indústria organiza a matéria-prima em larga escala, a artista Sandra Anselmi, natural de Farroupilha (RS), eleva o resíduo têxtil ao território da emoção e da memória coletiva. Fruto de uma pesquisa minuciosa de seis anos, sua instalação monumental “Natureza Tecida – Somos Um Único Fio” propõe uma reflexão sensorial profunda sobre a nossa conexão com o meio ambiente.
A obra é composta por esculturas têxteis gigantes que emulam a forma de cogumelos, utilizando cerca de 1,3 tonelada de sobras de malhas descartadas — o equivalente a impressionantes 40 mil quilômetros de fios recuperados. Para além do impacto visual, o processo de criação carrega uma forte dimensão social: os crochês que dão forma às peças foram confeccionados de forma colaborativa por mulheres em tratamento contra o câncer de mama, transformando o fazer manual em um espaço de afeto, acolhimento e cura.
Inspirando-se no micélio (a rede subterrânea de fungos que conecta plantas e distribui nutrientes em uma floresta), Sandra adota uma metodologia orgânica e contínua de tricô de braço, sem agulhas. Trata-se de uma metáfora biológica viva: assim como os fios se entrelaçam para dar sustentação às esculturas, a humanidade e a natureza dependem uma da outra para coexistir. Aqui, o resíduo de malharia deixa de ser sobra de fábrica para virar manifesto artístico e experiência imersiva.
O ENCONTRO DOS EXTREMOS: CONVERGÊNCIAS ENTRE O TEAR E O SENTIR
Embora operem em escalas, metodologias e ambientes distintos, a EuroFios e Sandra Anselmi convergem em direção ao mesmo horizonte ético. A análise cruzada de suas práticas revela quatro pilares fundamentais de sintonia:
A MATÉRIA-PRIMA RESSIGNIFICADA
Ambos adotam a reciclagem como espinha dorsal, interceptando toneladas de sobras de malhas que iriam para aterros, estendendo seu ciclo de vida útil e agregando valor estético e comercial ao que antes era descartado.
A ECONOMIA CRIATIVA EM FLUXO
Há uma via de mão dupla perfeita. Enquanto a EuroFios fornece a base material e tecnológica para que novos criadores produzam de forma limpa, Sandra utiliza a arte para gerar impacto social direto e despertar a consciência do consumidor final.
INOVAÇÃO SEM CONFLITO
Ambos demonstram que o compromisso ecológico não anula a eficiência ou a beleza. A engenharia da EuroFios prova a viabilidade comercial da economia circular, enquanto a sensibilidade de Anselmi valida sua urgência cultural.
A TEIA DE CONEXÕES
O fio, afinal, é o grande conector. Na EuroFios, ele amarra pontas complexas de uma vasta cadeia de fornecedores e indústrias; na obra de Sandra Anselmi, ele costura vidas, histórias de superação e a nossa relação com o ecossistema.
TECENDO O AMANHÃ
A jornada paralela e complementar de EuroFios e Sandra Anselmi deixa uma lição clara para o mercado têxtil global: a verdadeira sustentabilidade na moda não se resolve apenas com relatórios técnicos ou maquinários modernos, embora eles sejam indispensáveis. Ela se consolida quando encontra eco na cultura, na arte e na sensibilidade social.
A EuroFios ilustra a potência da indústria em fechar o ciclo de produção dos materiais; Sandra Anselmi desvela a capacidade da arte de transformar esses mesmos materiais em narrativas poéticas e coletivas. No final, ambas as trajetórias provam que o futuro da tecelagem depende da nossa habilidade de criar redes e conexões humanas mais profundas. Afinal, seja no chão de fábrica ou na galeria de arte, somos todos feitos do mesmo e único fio.
Juntos, EuroFios e Sandra Anselmi mostram que cada fio — seja industrial ou artístico — pode ser elo de transformação. Suas trajetórias provam que o futuro da moda depende de tecer conexões entre economia, ecologia e cultura.
