EMPRESAS BRASILEIRAS FAZENDO A “ROTA DA MAQUILA”

Paraguai simplifica operações e reduz impostos para atrair, cada vez mais, empresas estrangeiras a se instalar em seu território, gerando empregos e divisas

Não é de hoje que o empresariado brasileiro se queixa das condições e burocracias para ter um negócio aqui no país: impostos exorbitantes, alto custo logístico, energético e trabalhista, entre outros. Mesmo assim, assumem a “bronca”, criam suas empresas e levam seus empreendimentos adiante, movimentando toda a economia e industrialização do Brasil.

Mas, de uns tempos para cá, um sinal amarelo começou a piscar mais forte e, mesmo assim, insuficiente para o governo federal enxergar: empresas brasileiras estão buscando alternativa de produção com menores custos em outros países, e o vizinho Paraguai tem se mostrado muito atraente.

“O Paraguai construiu um ambiente bastante competitivo para atração de investimentos industriais, sobretudo por meio do regime de maquila, combinando tributação simplificada, custos competitivos e acesso ao mercado do Mercosul. É um movimento que merece muita atenção”, alerta o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Valente Pimentel.

Mas ele aponta que o fato de empresas brasileiras realizarem investimentos produtivos no Paraguai não deve ser tratado como uma crítica, já que elas precisam buscar competitividade e eficiência.

“A questão que deveríamos colocar é outra: por que determinadas atividades produtivas encontram condições mais competitivas do outro lado da fronteira? Esse movimento deve servir de alerta e, principalmente, de estímulo para acelerarmos a agenda de competitividade brasileira.”

O QUE É A MAQUILA?

Primeiro, vamos à origem do termo: maquila é uma palavra árabe (medida de grãos) e, no período medieval, quando os mouros tinham predominância no território espanhol, a palavra foi adotada para se referir à cobrança dos donos de moinhos, que, no lugar de dinheiro, ficavam com uma parte dos grãos moídos pelos camponeses.

Pulando para como conhecemos atualmente, maquila significa um modelo econômico adotado nos anos 1960 pelo México, com o intuito de atrair empresas norte-americanas a produzir em seu território aproveitando a mão de obra local. Como essas empresas em território mexicano apenas manufaturavam ou processavam o produto norte-americano – o qual era finalizado em seu país de origem –, recebiam uma porcentagem pelo trabalho feito e reexportavam, sem impostos, aos EUA, muito semelhante ao sistema medieval original. Esse regime foi impulsionado em 1993 com a criação do NAFTA, uma zona livre de impostos formada pelos Estados Unidos, Canadá e México.

De acordo com a Enciclopédia Britannica, maquiladora é uma fábrica que importa e monta componentes isentos de impostos para exportação, em um acordo que permite que os proprietários das fábricas se beneficiem da mão de obra barata e paguem impostos apenas sobre o “valor agregado”, ou seja, sobre o valor do produto final menos o custo total dos componentes importados para sua fabricação.

Depois de México e Estados Unidos, países asiáticos, em especial a China, e latino-americanos também começaram adotar a modalidade, e o Paraguai é um dos países que se destacam nessa prática.

Criada em 1997, a Lei da Maquila do Paraguai (Lei n.o 1.064/97) foi adotada efetivamente apenas no ano 2000, após aprovação de decreto. Seu objetivo, segundo a consultoria PwC Brasil, é o de promover o estabelecimento de empresas maquiladoras, dedicadas total ou parcialmente ao desenvolvimento de processos produtivos com criação de valor agregado no país por meio da combinação de bens ou serviços de procedência estrangeira importados temporariamente, com mão de obra e outros recursos nacionais, e com produção destinada à exportação.

Há cerca de um ano, em setembro de 2025, foi atualizada e agora opera sobre a Lei n.o 7.547/2025. Entre as principais mudanças estão a abertura à maquila de serviços (softwares, call centers e empresas de tecnologia), pois antes só era permitido para empresas físicas de manufatura no Paraguai; contratos firmados para renovação após 20 anos, trazendo maior segurança jurídica diante de contratos temporários revisados periodicamente; e manutenção do imposto único de 1%, mas agora com a devolução de 0,5% de crédito IVA ao setor de serviços.

Além disso, o governo paraguaio quer aumentar a governança sobre empresas estrangeiras operando em seu país sob a Lei da Maquia, incluindo a participação de órgãos como o Ministério do Trabalho, Emprego e Seguridade Social (MTESS), Direção Nacional de Ingressos Tributários (DNIT) e Conselho Nacional da Indústria Maquiladora de Exportação (CNIME), órgão que autoriza e regulamenta a entrada de empresas brasileiras no país vizinho.

“Nosso objetivo não é apenas criar empregos, mas também garantir salários. Estamos combatendo preconceitos e demonstrando que o talento paraguaio é sinônimo de excelência global”, disse o presidente do Paraguai, Santiago Peña, durante a assinatura do decreto de atualização da Lei de Maquila, em abril deste ano.

A “TÁTICA GUARANI”

Basicamente, os valores muito reduzidos em impostos, nos quais há isenção para a importação de matérias-primas, maquinários e de Imposto de Renda no Paraguai. O imposto que é cobrado é de apenas 1% sobre o valor agregado em cada etapa da produção, e como há o acordo do Mercosul (e agora entre Mercosul e União Europeia, deixando tudo ainda mais estimulante), as mercadorias ficam isentas para entrar aqui no país. Os custos trabalhistas e com energia elétrica também são fatores preponderantes: um trabalhador paraguaio custa até 40% menos (mas os benefícios aos trabalhadores também são mínimos, comparados às leis brasileiras) e a energia até 60% menos do que no Brasil.

Márcio Coimbra, ex-diretor da ApexBrasil e hoje CEO da Casa Política, chama esse conjunto de fatores de “tática guarani”: enquanto o Paraguai opera um milagre econômico silencioso e abraça a liberdade econômica de forma inteligente e rumo ao futuro, o Brasil insiste em fórmulas arcaicas.

“Os números mostram a dimensão que esse modelo alcançou. Em 2025, as exportações realizadas pelo regime de maquila paraguaio chegaram a aproximadamente US$ 1,26 bilhão, crescimento de cerca de 14% em relação ao ano anterior. Desse total, têxteis e confecções responderam por aproximadamente 16%, o que corresponde a algo em torno de US$ 200 milhões em exportações em apenas um ano. Além disso, aproximadamente 64% de todas as exportações realizadas pelas maquiladoras paraguaias tiveram o Brasil como destino. Ou seja, não estamos diante de um fenômeno marginal, estamos falando de uma política de atração de investimentos que ganhou escala e na qual as cadeias têxtil e de confecção têm participação relevante”, ressalta Pimentel.

Ele diz que, apesar de a Abit não possuir um estudo específico sobre esse movimento, os números disponíveis são suficientemente relevantes para justificar um acompanhamento mais aprofundado. “Levantamentos externos recentes apontam a existência de mais de 230 empresas de origem brasileira operando sob o regime de maquila no Paraguai, das quais aproximadamente 90 estariam ligadas aos segmentos de confecção e têxteis. Estamos falando de aproximadamente US$ 200 milhões anuais em exportações de têxteis e confecções dentro do regime de maquila, além de uma presença expressiva de empresas brasileiras. É importante ressaltar, entretanto, que uma operação brasileira no Paraguai não significa necessariamente o fechamento ou a transferência de uma fábrica no Brasil. Em muitos casos, pode representar expansão, complementaridade produtiva ou uma estratégia regional da própria empresa.”

Ainda segundo Pimentel, o problema surge quando o investimento no exterior substitui um investimento que poderia ser realizado no Brasil exclusivamente porque nosso ambiente de produção se tornou menos competitivo. “Se isso ocorre de maneira crescente, podemos perder produção, investimentos, empregos, conhecimento e arrecadação.

Há ainda uma característica particularmente importante nesse caso: o Brasil é o principal destino das exportações realizadas pelas maquiladoras paraguaias. Portanto, uma parcela relevante da produção realizada no Paraguai retorna justamente para disputar o mercado brasileiro. Isso reforça a pergunta que precisamos fazer: o que o Paraguai está oferecendo para atrair esses investimentos e o que precisamos mudar para tornar o Brasil novamente mais competitivo para produzir? Não se trata de impedir empresas brasileiras de investir no Paraguai, nem de transformar o Paraguai em adversário. Trata-se de utilizar essa experiência como referência concreta para identificar os custos e entraves que levam investimentos industriais a atravessar a fronteira.”

EMPRESAS “BRASIGUAIAS”

Com quase uma centena de empresas brasileiras dos setores têxtil e de confecção, de diversos segmentos, operando no Paraguai sob o regime de maquila, recentemente uma chamou bastante a atenção do mercado: a centenária Lupo, que em julho de 2025 deu início à sua operação no Paraguai, sem deixar de investir no crescimento da companhia aqui no Brasil, pelo contrário.

De acordo com Carlos Mazzeo, CEO da Lupo, essa é a primeira unidade fabril própria da companhia fora do Brasil, e está sediada em Ciudad del Este, muito próxima à fronteira com nosso país. Ele explica que a unidade faz parte da estratégia industrial e de internacionalização do Grupo Lupo e tem caráter complementar às operações brasileiras, contribuindo para ampliar a capacidade produtiva e a competitividade da companhia.

Lupo: empresa aposta em sua recente planta fabril no Paraguai como complementar à brasileira. / Divulgação

“Antes da entrada em operação da fábrica, a preparação do projeto se deu no início de 2025. Algumas máquinas foram instaladas em uma escola local, onde iniciamos a formação dos primeiros profissionais paraguaios, com treinamento realizado por técnicos da Lupo Brasil. Esse trabalho foi fundamental para desenvolver conhecimento técnico local e preparar a equipe que, posteriormente, passou a atuar na unidade”, conta Mazzeo.

A unidade de Ciudad del Este foi integralmente estruturada e parametrizada para a produção de meias socks básicas (cano curto), uma categoria que, segundo Mazzeo, vem apresentando crescimento acima da média do segmento e que possui importância estratégica para a Lupo, que ocupa posição de liderança no mercado brasileiro de meias desse modelo. Ainda segundo o CEO, a unidade paraguaia é complementar à estrutura brasileira, e o projeto prevê a instalação de 400 teares, dos quais aproximadamente 350 já estão em funcionamento.

“A operação foi concebida para dar escala, produtividade e competitividade a uma categoria em crescimento, permitindo à companhia acompanhar a evolução da demanda e fortalecer ainda mais sua presença nesse mercado. A produção deverá continuar crescendo à medida que concluirmos a implantação dos equipamentos e avançarmos na eficiência operacional e na formação técnica das equipes locais. Enquanto o Paraguai amplia capacidade e competitividade na produção de meias socks básicas, a Lupo segue investindo no Brasil, principalmente na modernização e incorporação de novas tecnologias no parque industrial de Araraquara. Portanto, não se trata de substituir a produção brasileira. A estratégia é fortalecer as duas operações, aproveitando a vocação de cada uma delas e construindo uma plataforma industrial mais eficiente e preparada para sustentar o crescimento da Lupo nos próximos anos”, revela.

A decisão de investir no Paraguai, segundo Mazzeo, nasceu da estratégia de crescimento da Lupo e ampliação da capacidade produtiva. “Precisávamos expandir nossa estrutura em uma categoria importante para a companhia e que vem apresentando crescimento acima da média do segmento. Ao analisarmos as alternativas, identificamos no Paraguai condições favoráveis para desenvolver uma operação industrial competitiva, próxima ao Brasil e com potencial para apoiar também o crescimento da Lupo na América do Sul. Aspectos como ambiente de negócios, logística regional, estrutura de custos e condições oferecidas pelo país também fizeram parte dessa análise.”

Parte industrial estruturada, chegou a vez da parte operacional. Carlos Mazzeo revela que, desde o início do projeto, a formação e o desenvolvimento dos colaboradores foram tratados como uma das prioridades da implantação, e que a operação no Paraguai exigiu dedicação importante à capacitação das equipes e à construção do conhecimento técnico local utilizando o conhecimento industrial acumulado pela Lupo no Brasil para apoiar a formação da nova operação.

“O Paraguai possui características culturais próprias e, por isso, entendemos rapidamente que não bastava simplesmente reproduzir o modelo de treinamento utilizado no Brasil. Foi necessário adaptar a linguagem, as metodologias de capacitação, as práticas de gestão e a forma de integração entre as equipes, respeitando a realidade e a cultura local. Houve, portanto, uma adaptação dos dois lados. Os profissionais paraguaios avançaram na formação técnica e na incorporação dos processos industriais da Lupo, enquanto a equipe brasileira também evoluiu na forma de trabalhar e compartilhar conhecimento em um ambiente cultural diferente. Mais do que implantar uma fábrica, estamos construindo conhecimento e uma nova cultura industrial em conjunto.”

A CONVICÇÃO EM FICAR

Enquanto muitas empresas têm seguido a “rota da maquila”, outras, como o Grupo Posthaus, fazem questão de permanecer com 100% de sua produção feita no Brasil.

Robson Parzianello, diretor comercial do Posthaus: a análise de custos precisa ir muito além do valor direto de fabricação. / Divulgação

Com 390 colaboradores diretos e sediado em Blumenau (SC), o Grupo Posthaus, detentor das marcas de moda feminina Quintess e Marguerite, e com uma gigantesca operação logística e no e-commerce de moda, elenca seus pontos para chegar a essa conclusão. Robson Parzianello, diretor comercial do Posthaus, afirma que, apesar da valorização do produto feito no Brasil para fortalecer a economia local, a decisão estratégica do Grupo não se baseia em discurso patriótico, mas em uma avaliação rigorosa de previsibilidade operacional, governança e velocidade de resposta ao mercado consumidor.

“A análise de custos precisa ir muito além do valor direto de fabricação. Quando produzimos perto do nosso mercado consumidor, trabalhamos com parceiros estratégicos com os quais construímos relações de longo prazo, baseadas em conformidade e desempenho. Isso nos permite responder rapidamente às oscilações de demanda, reduzir os prazos de entrega e exercer um controle rigoroso sobre a qualidade do produto”, afirma Parzianello, reforçando que a proximidade geográfica com os fornecedores acelera o ciclo de desenvolvimento de produto da Quintess.

“Ajustes finos de modelagem, testes de toque de tecido e correções de caimento são realizados de forma quase instantânea, sem barreiras alfandegárias, logísticas ou de fuso horário. O resultado prático é uma operação comercial responsiva, alinhada entre a intenção original do design e o produto que chega às mãos do consumidor. Em casos de alta demanda, a reposição é rápida. Já em situações em que o produto não performa como esperado, conseguimos comprar lotes menores para equilibrar estoque. Em muitos casos, um custo unitário menor não compensa perdas geradas por atraso ou pela falta de aderência ao mercado”, explica.

O diretor comercial ainda destaca que, além dos ganhos corporativos, ao produzir integralmente no Brasil, o grupo movimenta uma rede de pequenas e médias empresas parceiras e fornecedores de insumos que dependem da previsibilidade dos pedidos para investir, crescer e gerar empregos formais. “Essa operação forma um ecossistema encadeado que sustenta a atividade econômica regional, conectando confecções, facções, fornecedores de insumos e beneficiadoras ao longo de toda a cadeia produtiva nacional.”

INTEGRAÇÃO PRODUTIVA

Para que essa equação seja benéfica para ambos os lados, a Abit considera importante ampliar o diálogo com as entidades representativas das indústrias têxtil e de confecção dos demais países do Mercosul, inclusive do Paraguai, e diz que essa aproximação se torna ainda mais relevante diante das novas oportunidades de inserção internacional do bloco, especialmente com o acordo Mercosul-União Europeia.

“Podemos trabalhar conjuntamente em integração produtiva, comércio exterior, sustentabilidade, capacitação, inovação e atração de investimentos. Precisamos pensar cada vez mais no Mercosul como uma plataforma produtiva integrada e competitiva internacionalmente, sem deixar de reconhecer que os países também competem pela localização dos investimentos. Essa competição saudável também nos ajuda a identificar onde precisamos melhorar nosso ambiente de negócios”, conclui Pimentel.